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sábado, 21 de janeiro de 2012

A Pele que Habito

A Pele que Habito (La Piel que Habito) - 2011. Dirigido por Pedro Almodóvar. Escrito por Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar, baseado na obra de Thierry Jonquet. Direção de Fotografia de José Luis Alcaine. Música Original de Alberto Iglesias. Produzido por Agustín Almodóvar e Esther García. El Deseo S.A., Canal+ España, Instituto de Crédito Oficial (ICO) e Televisión Española (TVE) / Espanha.


Existem alguns cineastas acerca dos quais só criamos boas expectativas, de alguma forma nossa relação com suas obras nos diz que dificilmente eles seriam capazes de nos surpreender negativamente. Este é o meu caso com os filmes de Pedro Almodóvar. Mesmo depois de tantos filmes ele não foi capaz de me decepcionar, reconheço que sua carreira tenha tido altos e baixos, mas no caso dele os “baixos” estão bem acima da média. Foi com este entusiasmo que comecei assistir A Pele que Habito (2011), seu mais recente trabalho. À minha expectativa foi ainda somada uma grande curiosidade, afinal este seria o primeiro flerte do diretor com o terror, gênero que convenhamos não tem muito a ver com estilo melodramático que lhe é característico.

A Pele que Habito, que é uma livre adaptação do livro Tarantula do escritor francês Thierry Jonquet, tem no centro de sua trama o excêntrico doutor Robert Ledgard (Antonio Banderas), um personagem claramente inspirado na clássica figura do cientista louco, ele é um cirurgião plástico que está trabalhando em uma espécie de segunda pele, esta mais resistente que a pele humana natural, a jovem Vera (Elena Anaya) é mantida reclusa em seu laboratório e lhe serve como cobaia em seus experimentos, só quem sabe da existência dela é Marilia (Marisa Paredes), a mulher que criou Robert e que fora trazida por ele para trabalhar como governanta em sua mansão após a morte trágica de sua esposa, a quem ele nunca conseguiu esquecer.


À principio tudo na trama nos leva a crer que ela se desenvolverá como uma história de terror convencional, no início o toque autoral de Almodáver se faz presente apenas na parte estética da obra, que é tão bem trabalhada quanto em seus filmes anteriores. Nesta primeira parte senti que faltava uma pincelada do estilo de caricato e por vezes exagerado do cineasta, algumas peças não encaixavam, tudo indicava que seria um apenas um bom filme e nada a mais que isso. No entanto a trama começa a se desenrolar, outros personagens são somados à ela, segredos começam a ser revelados e o passado dos personagens desnudado, aquilo que parecia estar deslocado, passa a fazer todo o sentido, ainda que da forma mais melodramática e exagerada possível, ai vem a certeza, estamos diante de um filme de Almodóvar!


Em A Pele que Habito o diretor cria uma espécie de metáfora do homossexualismo, um dos temas recorrentes em sua filmografia, no desenvolver da história ele faz uma desconstrução da ideia de estar preso em um corpo não condizente com sua sexualidade, para a partir daí colocar alguns tabus e convenções em xeque, tudo isso é feito de uma forma simbólica e sem panfletarismo, o que torna o filme ainda mais interessante. Não pretendo tecer aqui um comentário mais aprofundado sobre tal metáfora, pois para isso eu teria que revelar segredos da trama, o que tiraria todo o prazer de assistir ao filme... Se por um lado o roteiro expõe de forma quase subliminar suas abordagens, por outro ele já é bem direto, nós expectadores não somos poupados diante de cenas de violência sexual em condições que beiram o grotesco (a foto postada acima dá um claro exemplo disso)...


Em A Pele que Habito Almodóvar volta a trabalhar depois de anos com Antonio Banderas, ator que teve a carreira internacional deslanchada depois da parceria de ambos no excelente Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1987), o último filme no qual tinham trabalhado juntos fora Ata-me, rodado em 1990, há mais de 20 anos portanto. O elenco ainda conta com a presença mais que ilustre de Marisa Paredes, atriz com quem Almodóvar não trabalhava desde Fale Com Ela (2002). Tanto Banderas, quanto Paredes nos presenteiam com ótimas atuações, eles imprimem em seus respectivos personagens uma carga dramática digna dos melhores filmes do diretor espanhol. A bela Elena Anaya também tem um desempenho notável, ela interpreta um dos personagens mais complexos da trama... A fotografia e a direção de arte, são aspectos que praticamente dispensam qualquer comentários, pois já sabemos de antemão que o cuidado com o visual de seus longas é uma das principais marcas de Almodóvar.


A crítica especializada parece ter se descabelado para enquadrar A Pele que Habito em um gênero cinematográfico específico, o filme chegou a ser rotulado de noir (principalmente por causa do livro que lhe deu origem), terror, suspense psicológico, ficção científica e, lógico, melodrama... A verdade é que ele transita por todos estes gêneros sem se ater a nenhum deles. A complexidade de sua trama, que vai se desenvolvendo em camadas, ao mesmo tempo em que é o seu maior charme, também acaba sendo seu ponto mais frágil. A decisão de criar diversos focos narrativos chegou a ser apontada por parte da crítica como a responsável pela “irregularidade” do filme. Eu, no entanto, acredito que se esta irregularidade realmente exista, ela foi proposital e o intuito por trás dela seria tão somente o de gerar a sensação de desconforto que nós espectadores sentimos durante quase todo o filme, sensação esta que explicaria e  justificaria a declaração dada pelo diretor de que este seria um "terror, mas sem gritos ou sustos"...

A Pele que Habito não alcança, em minha opinião, o mesmo status qualitativo de obras primas de Almodóvar como Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Volver (2006) e Carne Trêmula (1997), no entanto é um grande filme, um dos melhores de 2011, que merece sem dúvidas ser apreciado... Recomendo!


A Pele que Habito recebeu uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, no Bafta ele concorre ao prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa

Assistam ao trailer de  A Pele que Habito  no You Tube, clique AQUI !
Não permita que este trailer (horrível) lhe desmotive!

Indicados ao BAFTA 2012

Na última terça-feira (17/01) foi divulgada a lista dos indicados ao BAFTA (British Academy of Film and Television Arts), premiação considerada o "Oscar do cinema britânico". Os filmes com maior número de indicações foram O Artista (12), O Espião que Sabia Demais (11), A Invenção de Hugo Cabret (09), Sete Dias com Marilyn (06), Histórias Cruzadas (05) e Cavalo de Guerra (05). Destaque também para o documentário Senna, que recebeu 3 indicações, inclusive a de Melhor Filme Britânico. 

Mais uma vez, tal como no Globo de Ouro, senti o peso da ausência de Melancolia de Lars Von Trier e de A Árvore da Vida, os dois filmes que na minha opinião ocupam o topo da lista de melhores do ano passado... Contudo, acompanhemos!
Confiram a relação completa de indicados:

Melhor Filme

Melhor Filme de Língua Não-inglesa
Incêndios
Pina
 Potiche: Esposa Troféu

Melhor Filme Britânico
Senna

Melhor Diretor
Michel Hazanavicius - O Artista
Nicolas Winding Refn - Drive
Martin Scorsese - A Invenção de Hugo Cabret
Tomas Alfredson - O Espião que Sabia Demais

Melhor Ator
George Clooney - Os Descendentes
Jean Dujardin - O Artista
Michael Fassbender - Shame

Melhor Atriz
Bérénice Bejo - O Artista
Meryl Streep - A Dama de Ferro
Michelle Williams - Sete Dias com Marilyn 
Viola Davis - Histórias Cruzadas

Melhor Ator Coadjuvante
Christopher Plummer - Toda Forma de Amor
Jim Broadbent - A Dama de Ferro
Kenneth Branagh - Sete Dias com Marilyn
Philip Seymour Hoffman - Tudo Pelo Poder

Melhor Atriz Coadjuvante
Carey Mulligan - Drive
Jessica Chastain - Histórias Cruzadas
Judi Dench - Sete Dias com Marilyn
Melissa McCarthy - Missão Madrinha de Casamento
Octavia Spencer - Histórias Cruzadas

Melhor Roteiro Original
O Guarda

Melhor Roteiro Adaptado

Melhor Fotografia

Melhor Edição
Senna

Melhor Designe de Produção
Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

Melhor Cabelo e Maquiagem
Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

Melhor Figurino
Jane Eyre

Melhores Efeitos Especiais
Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

Melhor Documentário
George Harrison: Living in the Material World 
Project Nim 
Senna

Melhor Som
Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

Melhor Trilha Sonora
O Artista – Ludovic Bource
Os Homens que Não Amavam as Mulheres – Trent Reznor, Atticus Ross
A Invenção de Hugo Cabret – Howard Shore
O Espião que Sabia Demais – Alberto Iglesias
Cavalo de Guerra – John Williams

Melhor Animação
Operação Presente

Melhor Curta-Metragem de Animação
Abuelas
Bobby Yeah 
A Morning Stroll

Melhor Curta-Metragem
Chalk
Mwansa The Great
Only Sound Remains
Pitch Black Heist
Two And Two

Melhor Estreia de Roteirista, Diretor ou Produtor Britânico
Ataque ao Prédio - Joe Cornish (diretor/roteirista)
Black Pond - Will Sharpe (diretor/roteirista), Tom Kingsley (diretor), Sarah Brocklehurst (produtor)
Coriolanus - Ralph Fiennes (diretor)
Submarine - Richard Ayoade (diretor/roteirista)
Tyrannosaur - Paddy Considine (diretor), Diarmid Scrimshaw (produtor)


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Stanley Kubrick – Imagens de Uma Vida

Stanley Kubrick – Imagens de Uma Vida (Stanley Kubrick – A Life in Pictures) - 2001. Produzido e dirigido por Jan Harlan. Narrado por Tom Cruise. Warner Bros Pictures / USA.


O que esperar de um documentário sobre a vida e a obra de um dos maiores gênios da sétima arte, dirigido por um dos profissionais que o acompanhou em algumas de seus mais notórios trabalhos? Pois é, não tinha como esperar outra coisa a não ser um mergulho na personalidade, no estilo e no modus operandi do homem e do mito sobre o qual se fala. A expectativa se torna ainda maior por se tratar de um filme sobre Stanley Kubrick, o cineasta que enquanto vivo fez de tudo para se manter longe dos olofotes e do assédio midiático, dirigido por Jan Harlen, o produtor que apostou em alguns mais importantes da história do cinema. Conhecido por ser um diretor “bissexto”, meticuloso e perfeccionista, Kubrick fez o inimaginável, ele rodou verdadeiras obras de arte em Hollywood, mesmo sendo polêmicas algumas destas produções conseguiram a proeza de conquistar sucesso tanto de público quanto de crítica. O considerável retorno financeiro de alguns de seus filmes lhe rendeu uma liberdade criativa poucas vezes vista no cinema mainstrean americano, de posso de tal liberdade ele experimentou e ousou, transpondo limiares que não tinham sido até então sequer atingidos.

Stanley Kubrick – Imagens de Uma Vida (2001) cobre toda a tragetória do cineasta, desde seu primeiro longa, Fear and Desire (1953) até De Olhos bem Fechados (1999), o último, concluido dias antes de sua morte. O documentário ainda invade a tão resguardada privacidade do cineasta, mostrando imagens de sua infância e de sua vida ao lado da esposa e das duas filhas. Jan Halen se preocupa também em explorar a gênese da genialidade de Kubrick, mostrando sua paixão pela literatura, pelo xadrez e pela música clássica e ainda seu trabalho prematuro como fotógrafo, atividade na qual descobriria o dom de manipular as imagens.


Stanley Kubrick – Imagens de Uma Vida traz diversos depoimentos de atores, técnicos, produres e até de outros diretores que trabalharam com o cineasta ou que reconhecem a importância de sua obra. Dentre os entrevistados estão Steven Spilberg, Martin Scorcesse, Woody Allen e Sydney Pollock, eles analisam cada um dos filmes de Kubrick, suas inovações, experimentalismos e a importância deles para o cinema como um todo. É interessante ver outros realizadores cultuados comentando suas reações diante de algumas uma das películas de Stanley, que já lhe causaram espanto, admiração e até decepção. Um dos pontos positivos do documentário é que ele não se atém a falar apenas dos lados positivos do cineasta, alguns depoimentos chegam a ser conflitantes por exporem visões tão diversas acerca de um mesmo homem. Enquanto alguns lamentam não poder trabalhar com ele novamente, como é o caso Jack Nicholson, outros como a atriz Shelley Duvall (para quem as filmagens de O Iluminado (1980) foram traumatizantes) dizem não ter coragem de repetir a dose.

Sendo ou não um figura complexa, dona de uma personalidade difícil, o que não se pode negar é que Stanley Kubrick foi um dos maiores e mais importantes cineastas de todos os tempos, seu perfeccionismo quase doentio, que o fazia repetir durante dias uma mesma cena, rendeu obras as quais o tempo não foi capaz de envelhecer. 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968) e Laranja Mecânica (1971) continuam a nos intrigar até hoje, o suspense de O Iluminado (1980) ainda consegue causar mais arrepios que a maior parte das obras atuais do gênero... Stanley Kubrick – Imagens de Uma Vida será um verdadeiro deleite para aqueles que já conhecem a obra de Kubrick, já para aqueles que ainda não testemunharam sua genialidade, este documentário é um forma de adentrar neste mundo belo e perturbador que é a mente deste homem que aparentava ter sempre uma ebulição de ideias em sua cabeça. Ultra Recomendado!


Assistam a introdução de  Stanley Kubrick – Imagens de Uma Vida  no You Tube, clique AQUI !


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Julie e Julia

Julie e Julia (Julie & Julia) - 2009. Dirigido por Nora Ephron. Escrito por Nora Ephron, baseado nas obras de Julie Powell e de Julia Child e Alex Prud'homme. Direção de Fotografia de Stephen Goldblatt. Música Original de Alexandre Desplat. Produzido por Nora Ephron, Laurence Mark, Amy Robinson e Eric Steel. Columbia Pictures / USA.


Assisti Julie e Julia (2009) pela primeira vez no início de janeiro do ano passado, eu estava de férias e tal como neste ano, eu não tinha nada planejado, eu sabia que não iria viajar e tão pouco tinha algum compromisso agendado para aquele período, eu precisava de algo que me tirasse da inércia e que ao mesmo tempo desse algum sentido para aqueles dias de tédio. Foi então que ao assistir ao filme dirigido por Nora Ephron, eu tive uma espécie de epifania: Por que não aproveitar o ócio para voltar a postar no meu blog (que estava então praticamente esquecido)? Quando criei o Sublime Irrealidade, em maio de 2008, eu não tinha nem um objetivo, nem uma linha editorial bem definidos, o primeiro post, Gênese, já deixava isso bem claro, dois anos e meio se passaram sem que eu encontrasse um norte para ele... A trama de Julie e Julia foi o incentivo que eu precisava para reformula-lo por completo, cheguei então á conclusão de que se eu quisesse ter um blog eu precisava, antes de qualquer coisa, saber sobre o que escrever ... Parecia o óbvio, mas a ideia de escrever sobre cinema (e outras expressão artísticas) demorou para ser assimilada. Na ocasião eu já tinha postado a resenha de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), no entanto foi só quando postei a crítica de Os Imorais (1990) que a ficha realmente caiu, naquele dia veio a ideia mirabolante de comentar no Blog cada um dos filmes que eu viesse a assistir a partir de então.

Desde o princípio eu tentei encarar isso não como uma meta, nem como uma obrigação, afinal precisava ser algo natural e espontâneo para valer à pena. Decidi que não postaria sobre filmes cuja exibição fosse prejudicada por fatores externos (tais como conversação durante a exibição), nem sobre aqueles cuja qualidade da exibição deixasse a desejar (como os dublados exibidos pela TV aberta). Diante da empreitada e da pouca falta de tempo, acabei assistindo a menos filmes do que nos anos anteriores, contudo o aprendizado foi muito maior. Durante este ano, assisti e escrevi sobre produções dos mais diversos gêneros, passei por clássicos, cults, indies e até por alguns lançamentos e brokebusters (no total foram mais de 120 obras resenhadas). Em cada uma das resenhas que escrevi, busquei ter como referência não só os nomes envolvidos, ou os prêmios conquistados pelos filmes, mas principalmente a impressão cada obra individualmente causou em mim durante a exibição, este era para mim o diferencial... Neste período, adquiri conhecimento e acumulei um considerável número de visualizações de página, no entanto o mais valioso foram as amizades e parcerias conquistadas... Conheci pessoas maravilhosas, donas de uma excelente bagagem cultural, que ora me incentivaram com elogios, ora me mostraram através de críticas quais os caminhos eu deveria seguir.


Deixemos um pouco de lado tais divagações e voltemos ao filme. Julie e Julia é baseado em duas histórias reais de persistência e auto-superação. Na primeira, que se passa nos anos 50/60, conhecemos Julia Child (Meryl Streep), ela que acabara de mudar com o marido, o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), para Paris, começa a sentir-se deslocada na cidade por não ter um emprego ou algo a que se dedicar. Em uma tentativa de ocupar seu tempo com algo produtivo, Julia começa um curso de culinária em período integral. Ela, que se apaixonara pela cozinha francesa desde sua chegada ao país, fica decepcionada ao descobrir que não existe nenhum livro de receitas da culinária local que tenha sido traduzido para o inglês. Após vencer a sua falta de jeito com a cozinha e terminar o curso (ela não conseguiu o diploma por não ter sido aprovada na prova final), Julia decide embarcar junto com duas novas amigas numa ousada missão, elas pretendem escrever um livro que sirva como um guia prático sobre a culinária francesa para donas de casa americanas... A obra em questão, que seria chamada de Mastering the Art of French Cooking, é até hoje um best seller do gênero.


Na segunda história somos apresentados à doce Julie Powell (Amy Adams), ela é uma escritora fracassada que trabalha em uma repartição pública, em um emprego no qual não encontra qualquer tipo de realização, ela se sente frustrada e entediada e a proximidade de seu aniversário de 30 anos, a faz refletir sobre os rumos de sua vida e acerca de tudo aquilo que ela já deveria ter conquistado. Julie não tem tantas vitórias ou realizações das quais se gabar (sua mãe faz questão de lhe lembrar que ela frequentemente não termina aquilo que começa), enquanto suas amigas mais próximas são, aparentemente, realizadas e bem sucedidas (na verdade são todas mais infelizes que ela, só não admitem isso, vivendo apenas de aparências). Tal como Julia, Julie conta apenas com o carinho e o constante apoio do marido. Quando ela decide criar um blog (em uma época em que eles ainda eram pouco comuns), é Eric Powell (Chris Messina), seu esposo, quem lhe sugere escrever sobre culinária, o tema é algo que ela gosta, sobre o qual seria portanto prazeroso escrever. Ela então estabelece a meta de preparar em um ano as 524 receitas do livro Mastering the Art of French Cooking, co-escrito por Julia Child, e postar sobre cada uma delas em seu blog recém criado, o Julie/Julia Project.


Tanto Julie quanto Julia passam por diversos momentos em que teria sido fácil desistir daquilo a que se dispuseram, nem todos à volta delas as apóiam, o pai de Julia e a mãe de Julie são, a princípio, dois grandes desmotivadores, mas com perseverança elas conseguem ir em frente, rumo ao reconhecimento que torna suas trajetórias dignas da adaptação cinematográfica. A narrativa do filme é simples e de uma agradável leveza que emociona e cativa, em Julie e Julia não tem vilões, nem efeitos especiais, nem clímax, sendo assim o atrativo é tão somente os personagens e suas respectivas histórias. Sabemos de antemão, que a trama é uma idealização dramática e que pode em diversos momentos divergir dos acontecimentos reais que a inspiraram, no entanto isso não é um problema para o filme, penso que, tendo em vista a proposta da obra, um maior comprometimento com a realidade poderia quebrar toda a "magia", comprometendo assim o resultado final e o efeito que a história produz em sobre nós espectadores.


Julie e Julia não é nem de longe uma obra prima e chega a ser bem clichê em alguns momentos, contudo é um filme delicioso de se assistir, isso não só pelos pratos que são preparados durante o desenvolvimento da trama (eu como vegetariano que sou não comeria nem metade deles). Meryl Streep nos brinda com mais uma excelente atuação, a voz e os trejeitos de sua personagem, que chegam a parecer caricatos, constituem uma recriação quase perfeita da verdadeira Julia Child (alguns vídeos, disponíveis no you tube, do programa que Julia apresentou na TV comprovam isso), seu desempenho extraordinário já seria mais que o suficiente para tornar o filme recomendável. Amy Adams também não faz feio, sua atuação explora muito bem o carisma de sua personagem, que se torna ainda mais cativante pela forma com que a atriz interpreta seus pequenos dramas e dilemas. A bela trilha sonora também merece destaque, mas no que se refere à parte técnica, é a montagem que nos salta os olhos, é ela que possibilita o constante diálogo entre as duas histórias contadas.



Julie e Julia não só me ajudou a encontrar um norte para o Sublime Irrealidade, ele foi também o ponto de partida para aquilo de melhor que fiz em 2011, tal como Julie, em meio a tantas frustrações eu descobri o prazer de escrever e de falar daquilo que realmente gosto; ela, conforme mostrado no filme, precisava de um prazo estabelecido para começar a escrever, eu precisava de disciplina, é por isso que considero uma vitória o simples fato de ter chegado até aqui, sou um vencedor sobre mim mesmo, consegui vencer minha inércia e até a minha costumeira preguiça de pesquisar e escrever. Hoje ao menos posso me gabar de não ter mais a sensação de estar "escrevendo para um vazio gigantesco"... Recomendo o filme a todos, sem restrições e dedico este post a cada um dos que visitaram, comentaram, criticaram e elogiaram o Sublime Irrealidade durante este ano... e que venham os próximos!


Julie e Julia recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Atriz (Meryl Streep). O filme ganhou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz em Comédia ou Musical (Meryl Streep), tendo sido indicado nesta premiação também na categoria de Melhor Filme - Musical ou Comédia.

Assistam ao trailer de Julie e Julia no You Tube, clique AQUI !


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Vencedores do Globo de Ouro 2012


A cerimônia de entrega do Globo de Ouro 2012 aconteceu ontem (15/01) em Los Angeles, esta, que foi a 69° edição da premiação promovida Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood aconteceu, ao meu ver, sem grandes surpresas. Os grandes vencedores foram (conforme esperado) os filmes The Artist, com 3 prêmios, e Os Descendentes com 2 e série Homeland que venceu em duas categorias. A evento foi apresentado, mais uma vez, pelo comediante inglês Ricky Gervais.

CINEMA

Filme Comédia ou Musical: The Artist

Filme Drama: Os Descendentes

Filme Estrangeiro: A Separação (Irã)

Filme de Animação: As Aventuras de Tintim

Atriz de Comédia: Michelle Williams por Sete Dias com Marilyn

Ator de Comédia: Jean Dujardin por The Artist

Atriz de Drama: Meryl Streep por A Dama de Ferro

Ator de Drama: George Clooney por Os Descendentes

Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer por Histórias Cruzadas

Ator Coadjuvante: Christopher Plummer por Toda Forma de Amor

Diretor: Martin Scorsese por Hugo

Roteirista: Woody Allen por Meia-Noite em Paris

Música Original: Ludovic Bource por The Artist

Canção Original: Masterpiece de W.E.


TELEVISÃO

Série Dramática: Homeland

Série Cômica: Modern Family

Minissérie ou Telefilme: Downton Abbey

Atriz de Série Dramática: Claire Danes por Homeland

Ator de Série Dramática: Kelsey Grammer por Boss

Atriz em Comédia: Laura Dern por Enlightened

Ator de Série Cômica: Matt LeBlanc por Episodes

Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Jessica Lange por American Horror Story

Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Peter Dinklage por Game of Thrones

Atriz de Minissérie ou Telefilme: Kate Winslet por Mildred Pierce

Ator de Minissérie ou Telefilme: Idris Elba por Luther


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Drive

Drive (Drive) - 2011. Dirigido por Nicolas Winding Refn. Escrito por Hossein Amini, baseado na obra de James Sallis. Direção de Fotografia de Newton Thomas Sigel. Música Original de Cliff Martinez. Produzido por Michel Litvak, John Palermo, Marc Platt, Gigi Pritzker e Adam Siegel. Bold Films, Odd Lot Entertainment, Marc Platt Productions, Motel Movies, Drive Film Holdings e Seed Productions / USA.


Assisti Drive (2011) pela primeira vez no último domingo (08/01), passei os últimos dias ruminando seu roteiro... Ontem, ao começar a escrever sua resenha, voltei a ele para rever algumas cenas que não saiam de minha mente e não resisti, não me contentei em rever somente algumas cenas, o assisti por completo mais uma vez e, acreditem, a impressão foi ainda melhor. Posso garantir que se não fosse a enorme quantidade de outros filmes esperando para serem assistidos eu embarcaria facilmente em uma terceira sessão com esta, que é sem dúvidas uma das melhores películas de 2011. O maior pecado que eu poderia cometer ao falar de Drive seria rotulá-lo tão somente como um filme de ação, pois ele extrapola qualquer noção de gênero, transitando ora pelo drama intimista, ora pelo familiar, passando também pelo suspense psicológico, esta última vertente menos explicita no roteiro, porém presente.

Nicolas Winding Refn, que recebeu o prêmio de direção em Cannes, constrói em Drive uma narrativa que parte quase que exclusivamente da perspectiva do personagem principal (Ryan Gosling), um enigmático motorista, cuja personalidade parece refletir não aquilo que ele é, mas tão somente aquilo que ele faz, ele não tem nome, não tem passado, ele apenas dirige... Mas se engana quem aponta o personagem como desumanizado ou minimalista, pois ele é justamente o oposto disso. Não nos importa saber de onde ele veio, nem quais são suas reais motivações, o que interessa é o conflito ético que ele experimenta na história e é este aspecto que torna o filme ainda mais impressionante. Na trama, o personagem ocupa seu tempo trabalhando ora como mecânico, ora como dublê em filmes de ação e ainda como motorista condutor de assaltantes em fuga. Ele não tem uma vida social, não tem tantos relacionamentos e observa o mundo à sua volta com resignação e indiferença. 


Diga-me onde começamos, onde vamos e onde vamos depois, eu te dou cinco minutos depois que chegarmos lá. Estou à sua disposição nesses cinco minutos, haja o que houver... Haja o que houver após os cinco minutos estará por sua conta. Eu não participo do roubo e não porto armas, eu dirijo!

A alienação social do personagem e o clima melancólico e opressivo de Drive nos remete a Taxi Driver (1976), obra prima de Martin Scorsese, a semelhança entre os dois longas, perceptível até no nome, não para por ai, algumas tomadas e enquadramentos são bem parecidos e a similaridade está presente também no desenvolvimento do personagem central que, tal como o taxista Travis Bickle, parece não ser guiado por uma moral social constituída, mas sim por uma espécie de código ética pessoal, código este que nos dois casos parece ter sido deturpado pelas suas respectivas vivências e pela reclusão que se auto impuseram. Ambos são marginais, no sentido de viverem à margem da sociedade. Ambos não conseguem se enquadrar ao meio em que vivem e suas atitudes são em diversos pontos condenáveis. Ambos num rompante de reação, conduzidos por uma espécie de justiça própria, decidem intervir no meio para destruir o que condenam e proteger o que valorizam, tal reação apenas reforça a ideia de que são determinados não por aquilo que são, mas por aquilo que fazem.


O "protagonista" de Drive, chamado em algumas cenas apenas de "Driver" (motorista em inglês), realiza seus serviços motivado por objetivos escusos, ele visivelmente não quer dinheiro, tão pouco ascensão social e seu trabalho na oficina mecânica me parece mais algo relacionado à gratidão que ele sente em relação ao patrão, que o aceitou como empregado sem fazer qualquer questionamento acerca de seu passado, do que um meio de garantir sua subsistência (esta é apenas uma das situações em que o que aflora é a ética pessoal do "motorista" e não o moralismo vigente). Passamos a entender o personagem um pouco melhor depois que ele conhece Irene (Carey Mulligan), sua vizinha, e o menino Benício (Kaden Leos), o filho dela; ele que está diretamente envolvido com a criminalidade local (o que seria uma postura moralmente condenável), assume o risco de se envolver em uma situação altamente perigosa para garantir a segurança de Irene e de sua família (o que seria à primeira vista uma atitude louvável), eias aí a discrepância no comportamento ético do personagem que culmina no conflito silencioso que o leva à reação violenta. 


Standart (Oscar Isaacs), o pai do filho de Irene, está preso, o que facilita a aproximação do "Driver", que ganha então a confiança da mulher e do garotinho. Irene começa a se deixar envolver por ele quando recebe a notícia de que o marido estaria ganhando a liberdade dentro em breve. O retorno de Standart, que poderia ser o mote para o desenvolvimento de um forte conflito, acaba nos deixando ainda mais intrigados acerca da personalidade do motorista, este aceita participar de um assalto para ajudar o ex-presidiário a quitar dividas contraídas enquanto estava na prisão. É então que surge a dúvida, por que ele colocaria sua vida em risco para tentar salvar o marido da mulher por quem está apaixonado? Ele de fato não estaria ganhando nada que compensasse o risco que correria ao participar do crime, tão pouco conquistaria o amor e o respeito de Irene com isso, mas ele o faz simplesmente porque acredita que é o certo a se fazer (outra vez a sua ética pessoal se sobressaindo diante da moral estabelecida).


O motorista de Drive talvez seja um dos personagens mais interessantes e intrigantes concebidos pelo cinema em 2011, ele não precisa falar muito ou ter frases de afeito para nos instigar já no início da exibição do filme. Ryan Gosling, em uma ótima atuação, consegue transmitir pela expressão facial (preste atenção nos closese pelos poucos gestos a frieza de seu personagem e a violência contida por ele, que ameaça explodir a qualquer momento. A fotografia cheia de contrastes acentuados, um belíssimo trabalho de Newton Thomas Sigel, nos dá plena noção dos sentimentos e sensações que cada cena transpira, o clássico jogo entre a luz e a sombra (que aparentam estar em um constante conflito em cada um dos fotogramas), parece materializar as contradições comportamentais e éticas do motorista. As tomadas feitas à noite são belíssimas, nalas a fotografia ajuda a delinear ao mesmo tempo a beleza e a hostilidade de Las Vegas. A captura de imagens feita de dentro do carro em movimento, que lembram algumas de Taxi Driver, consegue reforçar a ideia do distanciamento social e da solidão do personagem de uma forma sublime.


O ritmo do filme segue lentamente, como se buscasse contemplar uma áurea não tão aparente, presente em cada um dos personagens, principalmente no principal, tal ritmo é então subitamente quebrado pela explosão da violência, que não nos surpreende por já ter sido anunciada desde as primeiras sequências do longa. É durante a transição rítmica que percebemos a competência e a habilidade de Nicolas Winding Refn, em outras mãos a alteração abrupta poderia nos parecer imprecisa ou no mínimo estranha, o que definitivamente não é o que acontece no caso de Drive. Como se não bastasse tudo isso, o filme ainda tem uma trilha sonora fantástica, que remonta à uma sonoridade típica dos anos 70 e 80, as belíssimas canções ajudam não só na construção no clima predominante no filme, mas também na transição de ritmo e na leitura que fazemos de cada uma das atitudes do personagem principal... Drive é uma obra prima que precisa ser vista por todos! Ultra Recomendado!


Drive está indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Albert Brooks). Em Cannes, o filme foi o vencedor na categoria de Melhor Diretor.

Assistam ao trailer de Drive no You Tube, clique AQUI !